Sinto saudades daqueles momentos em que os vizinhos se reuniam para enfeitar a rua com bandeirolas de papel, a cola era natural, carinhosamente apelidada de grude.
Sinto saudades das “noites brasileiras nas fogueiras” onde se assava milho, pessoas se davam e se contraiam como padrinhos e afilhados, compadres e comadres. Sinto saudades daquela ardência nos olhos que a fumaça ocasionava. Me lembro bem, cada casa da rua havia uma fogueira, algumas maiores outra menores, mas ali estava ela para homenagear São João. Era tradição por um pouco de cinza delas nos cantinhos da calçada de casa.
Me lembro do cheiro do bolo pé-de-moleque que minha vó fazia. Detalhe, os ingredientes eram comprados aos poucos, como um ritual. O mais bonito era a partilha, não só do bolo, mas da pamonha, da canjica, do milho cozido, da alegria daquele momento.
Saudades das quadrilhas do bairro, das crianças inocentes que dançavam aqueles passos simples. Saudades da guerra de “mijão” e “busca-pé” no pátio da feira em que seu Rafael e sua equipe e do outro Capucho e, também sua equipe, no grito do “tá escuro”, riscavam o chão, o céu, as paredes e as roupas dos brincantes.
Hoje o balão que coloria o céu se transformou em desenho, assim como a fogueira que segue o mesmo caminho. Não se observa mais a partilha, a alegria dos vizinhos ou a rua enfeitada. Algumas bombas beijo de moça tendem a persistir, contudo os dias já estão contados. O “tá escuro” já não se ouve mais, seguiu o caminho da eternidade.
“Ai que saudades que eu sinto
Das noites de São João
Das noites tão brasileiras nas fogueiras
Sob o luar do sertão”. Sim seu Luiz, sinto saudades.
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