“Justiça tardia, mas feita”: familiares de Marielle Franco se emocionam com condenação dos irmãos Brazão


Entre lágrimas, picos de pressão e abraços demorados, familiares de Marielle Franco, de Anderson Gomes e de Fernanda Chaves acompanharam os dois dias de julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) que resultaram na condenação dos irmãos Brazão como mandantes do crime que o país aguardava ver esclarecido há oito anos.

Após a leitura das penas e o encerramento da sessão pelo ministro Flávio Dino, o plenário foi tomado por um silêncio denso. Não houve aplausos nem comemorações. O clima era de respeito e de sentimentos misturados — alívio, dor e uma sensação de justiça tardia, expressa em suspiros e lágrimas contidas.

Pai de Marielle, Antônio Francisco da Silva Neto resumiu o momento como uma “vitória derrotada”. “Eles não vão voltar”, disse, referindo-se à filha e a Anderson. Durante o julgamento, ele e a mãe da vereadora, Marinete Silva, precisaram deixar o plenário após alterações na pressão arterial e foram atendidos por socorristas nas dependências do tribunal. A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, irmã de Marielle, permaneceu ao lado da mãe durante boa parte da sessão.

Marinete deixou novamente o plenário quando o ministro Alexandre de Moraes detalhou as circunstâncias e motivações do assassinato. Segundo o relato, Marielle foi escolhida por confrontar interesses de grupos milicianos que atuavam em áreas sob influência dos irmãos Brazão. Em delação premiada, o executor Ronie Lessa afirmou que a vereadora se tornara “uma pedra no caminho” e que precisava ser eliminada. Moraes também mencionou que outros nomes foram cogitados, como o então deputado Marcelo Freixo, mas descartados pela maior visibilidade e aparato de segurança.

O ministro destacou ainda que o crime teve componentes de misoginia, racismo e homofobia. Mulher, negra e defensora dos direitos humanos, Marielle representava uma ameaça política aos interesses da milícia. Para a Corte, o assassinato buscou também enviar um recado intimidatório a outros agentes públicos.

Na primeira fila, Ágata Reis, viúva de Anderson, e Monica Benicio acompanharam o julgamento do início ao fim. Fernanda Chaves, sobrevivente do atentado, esteve presente ao lado do marido e da filha.

Ao final, a condenação foi anunciada. A ministra Cármen Lúcia ressaltou que o caso expôs a infiltração do crime organizado em estruturas institucionais e alertou para os desafios ainda existentes no enfrentamento às milícias.

Antes de deixar o STF, Anielle afirmou que a decisão representa uma resposta a quem minimizou ou desacreditou a gravidade do crime. Já Monica Benício disse que, embora a perda seja irreparável, o julgamento marca um capítulo importante na defesa da democracia brasileira.

“O que a gente perdeu é irreparável, mas a democracia precisa ser reparada. Que o caso de Marielle sirva de recado a quem ainda acredita na impunidade. Esse tipo de violência não será mais aceito”, declarou.

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